O cérebro na era das notificações: batalha por atenção afeta o funcionamento do órgão
Excesso de estímulos digitais na palma da mão afeta atenção, sono e memória e pode tornar tarefas longas mais difíceis no dia a dia
Impacto cognitivo: o excesso de estímulos digitais e a alternância constante entre conteúdos curtos dificultam a atenção sustentada e a realização de tarefas longas;
Mecanismo de hábito: o ambiente online utiliza recompensas imprevisíveis e picos de dopamina para condicionar o cérebro à busca por novidade e gratificação imediata;
Recuperação da atenção: especialistas da UFRJ, UnB e UFRGS indicam que o foco pode ser treinado com mudanças de rotina, meditação e higiene do sono.
Vivemos na era das multinotificações. Com o desenvolvimento da tecnologia, os smartphones dominaram o mercado e agora acompanham o usuário do momento em que ele acorda até a hora de dormir. Na tela, a cada minuto brotam lembretes de emails, comentários em redes sociais, notícias, aplicativos mostrando que música está tocando, compromissos e promoções.
Hoje, se troca de aplicativo com um movimento do dedo, aceleramos vídeos em que as pessoas aparentemente falam muito devagar e é difícil manter a atenção por mais de um minuto e chegar ao fim de um texto breve sem algum esforço.
Estudos recentes mostram que uma pessoa normal desbloqueia o celular mais de 100 vezes por dia. Nem sempre por que apareceu uma notificação — agora, estamos condicionados a dar uma olhadinha no aparelho mesmo sem que ele chame nossa atenção.
A comunidade científica está interessada em entender o que está acontecendo. Uma pesquisa publicada na revista Scientific Reports em 2023 colocou jovens adultos para fazer um teste de concentração. Parte deles, com o celular perto, e o restante, sem o apoio emocional do aparelho.
Os resultados indicaram pior desempenho quando o smartphone estava presente, sugerindo que ele consome parte dos recursos cognitivos disponíveis, mesmo quando não está sendo utilizado.
Por outro lado, um levantamento de 2025 publicado na revista European Journal in Health Psychology and Education aponta que essa relação não é tão direta. Os pesquisadores não encontraram diferença significativa no desempenho só por causa da presença do aparelho, mas pessoas com uso mais intenso do smartphone cometeram um pouco mais de erros.
Na prática, os dados indicam que o problema não está apenas em ter o celular por perto, mas em como ele é usado no dia a dia. Uma coisa é certa: o aparelho mudou o nosso cérebro e como o ser humano interage com o mundo.
Para tentar explicar esta nova fase do desenvolvimento humano, foi criado o conceito de hiperestimulação cognitiva. Ele descreve situações em que o cérebro é exposto a um volume e a uma velocidade de estímulos acima da sua capacidade de processá-los — algo que está mais ligado à forma de uso do que ao tempo total diante das telas. É o famoso brain rot, ou cérebro “podre”, que parece “desligar” quanto se vê superestimulado.
“A alternância constante entre redes sociais, mensagens, vídeos curtos e notificações reduz as oportunidades de atenção sustentada e de elaboração do que foi recebido”, explica o psiquiatra Antônio Egidio Nardi, professor da Faculdade de Medicina e no Instituto de Psiquiatria (IPUB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Apesar disso, ele destaca que o tempo de tela, isoladamente, não explica o fenômeno. “Duas pessoas podem passar seis horas diante de uma tela e ter experiências completamente diferentes. Uma pode estudar ou escrever de forma concentrada. Outra pode alternar centenas de vezes entre conteúdos curtos. O segundo caso impõe muito mais mudanças rápidas de foco”, afirma.

0 Comentários